Quando todos encerram a sua obra em determinado número de quadros valiosíssimos, eis que aparece uma obra que levanta a questão: estará de facto o mercado de obras de qualidade de Velázquez, esgotado?
A Educação da Virgem, encontrada num armazém de arte está agora a ser minuciosamente estudada e investigada por especialistas, para se saber se será de facto obra do pintor.
Mas quem decide um Velázquez?
Passados séculos sobre a morte do pintor esta avaliação, por mais profunda que venha a mostrar-se, culminará sempre numa resposta subjectiva da entidade avaliadora. E serão com certeza várias as entidades interessadas em atribuir quer a Velázquez quer a um pintor desconhecido a autoria da obra, uma vez que estamos a falar de um meio que movimenta vários milhões de euros: o mercado da arte.
De forma muito simplista, se for considerado Velázquez será comprado por vários milhões, se não for, será comprado por menos de metade daquele valor, independentemente de ter sido ou não pintado pelo artista.
Daqui surgem-me várias questões, as quais não tenho competência para responder, apenas pensar.
Actualmente a arte parece depender do artista. Quero dizer, num meio relativamente fechado, como é o dos artistas conceituados (e falo de todo o género de artistas, desde pintores a actores, coreógrafos, bailarinos, encenadores, performers...), tudo o que determinado artista faz é considerado arte, ainda que vá contra tudo o que foi feito até aí, tudo o que é feito por desconhecidos é considerado tentativa, repetição, aprendizagem.
A arte é uma forma de expressão do belo, de fazer sentir, de mostrar o mundo, de mudar o mundo. Convenhamos, é preciso muita presunção para definir todas estas coisas.
A obra descoberta permanecerá exactamente a mesma depois da peritagem, a técnica que nela foi aplicada não mudará, os sentimentos que desperta ou transmite serão os mesmos independentemente do resultado e, no entanto, um pequeno grupo de pessoas decidirá se pode ou não ser apreciada pelo mundo como obra de arte magnífica, ou apenas mais um quadro.
Qual é então hoje o valor da arte? Ou, mais romanticamente, “what’s in a name?”*
A Educação da Virgem perde ou ganha valor artístico conforme o nome de quem a pintou?
Já me parece perturbador pensar isto no plano abstracto do valor artístico da arte, mas chega a parecer-me quase repugnante quando o valor de que hoje em dia falamos é simplesmente o económico e tudo o que isso implica porque a tudo se sobrepõe.
Será que também a arte passou a depender do capitalismo?
Parece que sim, quando o dinheiro (quem o movimenta, quem o detém) determina o que é arte, o que é bom, o que é mau, feio ou bonito, maravilhoso ou superficial e o impõe a quem simplesmente gostaria de sentir a arte p’la arte.
* “What’s in a name? That which we call a rose / By any other name would smell as sweet.” , na peça Romeu and Juliet, de William Shakespeare