terça-feira, 5 de outubro de 2010

Velázquez - poderá afinal o mestre do século XVII estar ainda vivo? Ou que importância isso tem.

Quando todos encerram a sua obra em determinado número de quadros valiosíssimos, eis que aparece uma obra que levanta a questão: estará de facto o mercado de obras de qualidade de Velázquez, esgotado?

A Educação da Virgem, encontrada num armazém de arte está agora a ser minuciosamente estudada e investigada por especialistas, para se saber se será de facto obra do pintor.

Mas quem decide um Velázquez?

Passados séculos sobre a morte do pintor esta avaliação, por mais profunda que venha a mostrar-se, culminará sempre numa resposta subjectiva da entidade avaliadora. E serão com certeza várias as entidades interessadas em atribuir quer a Velázquez quer a um pintor desconhecido a autoria da obra, uma vez que estamos a falar de um meio que movimenta vários milhões de euros: o mercado da arte.

De forma muito simplista, se for considerado Velázquez será comprado por vários milhões, se não for, será comprado por menos de metade daquele valor, independentemente de ter sido ou não pintado pelo artista.

Daqui surgem-me várias questões, as quais não tenho competência para responder, apenas pensar.

Actualmente a arte parece depender do artista. Quero dizer, num meio relativamente fechado, como é o dos artistas conceituados (e falo de todo o género de artistas, desde pintores a actores, coreógrafos, bailarinos, encenadores, performers...), tudo o que determinado artista faz é considerado arte, ainda que vá contra tudo o que foi feito até aí, tudo o que é feito por desconhecidos é considerado tentativa, repetição, aprendizagem.

A arte é uma forma de expressão do belo, de fazer sentir, de mostrar o mundo, de mudar o mundo. Convenhamos, é preciso muita presunção para definir todas estas coisas.

A obra descoberta permanecerá exactamente a mesma depois da peritagem, a técnica que nela foi aplicada não mudará, os sentimentos que desperta ou transmite serão os mesmos independentemente do resultado e, no entanto, um pequeno grupo de pessoas decidirá se pode ou não ser apreciada pelo mundo como obra de arte magnífica, ou apenas mais um quadro.

Qual é então hoje o valor da arte? Ou, mais romanticamente, “what’s in a name?”*

A Educação da Virgem perde ou ganha valor artístico conforme o nome de quem a pintou?

Já me parece perturbador pensar isto no plano abstracto do valor artístico da arte, mas chega a parecer-me quase repugnante quando o valor de que hoje em dia falamos é simplesmente o económico e tudo o que isso implica porque a tudo se sobrepõe.

Será que também a arte passou a depender do capitalismo?

Parece que sim, quando o dinheiro (quem o movimenta, quem o detém) determina o que é arte, o que é bom, o que é mau, feio ou bonito, maravilhoso ou superficial e o impõe a quem simplesmente gostaria de sentir a arte p’la arte.

* “What’s in a name? That which we call a rose / By any other name would smell as sweet.” , na peça Romeu and Juliet, de William Shakespeare

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Aos milhares

Quanto vale a passagem aos quartos de final?
Não estou a falar da alegria inesgotável e incondicional do nosso nobre povinho português, que esquece a malvada crise, as diárias manifestações e os-políticos-que-são-uma-vergonha, cada vez que a "nossa" grande equipa entra em campo (ou durante todas as 12h diárias em que sabemos notícias sobre o estado do respirar dos "nossos" jogadores).
Não estou a falar do orgulho, do sonho, do valor futebolístico que gannhariam os 23 jogadores da selecção de futebol ao continuarem no campeonato mundial.
Estou a falar "apenas" dos 50 mil euros que cada um desses 23 jogadores ganharia se passasse à próxima fase.
Atenção! Isto não é mais uma opinião contra os grandes salários no futebol profissional, os quais percebo, visto que são pagos por entidades privadas numa indústria de lucros monumentais.
Isto sou eu, chateada com 1.150.000€ que iriam sair do dinheiro dos contribuintes directamente para 23 pessoas. Uma pequena motivação, dirão, para os pobres trabalhadores de futebol e representantes do país nessa área tão importante.
Perderam. Oh!
Não faz mal, o nosso país rico e próspero pagou-lhes 800€ diários desde o estágio na Covilhã.
Uns míseros 38.000€ para cada jogador.
E, aqui, nesta situação ridícula e de dinheiros públicos, torna-se necessário voltar à comparação com os salários (públicos) mínimos e médios de Portugal. Mas claro, o futebol faz as massas felizes, e é só!
Bom, o que interessa é que qualquer português, pobre ou rico, pode ter chorado p'la "nossa" selecção (aposto que até mais pobres do que ricos) e teria ficado imensamente feliz se "continuássemos" na competição.
Por mim, ainda bem que perderam.
23 pessoas perderam muito dinheiro, vários milhões pouparam algum.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

SCUT

Tanta discussão sobre a falta de alternativas, os pobres dos utilizadores, os direitos adquiridos agora usurpados pelo mauzão do Governo.

Mas será que destruiram as estradas nacionais ou equivalentes?
Será que se esquecem que os utilizadores das travessias do Tejo pagam diariamente e desde sempre portagens?
Será que se sempre tivessem pago estas SCUT agora reclamavam e buzinavam menos?
Já chega, senhores.

Saramago

Quem o lia antes era acusado de intelectual ou pseudo-intelectual.

Hoje, quem não gosta de o ler é que se acha o verdadeiro intelectual.
Lá está, ir contra o rebanho, nem sempre é sinónimo de liberdade.

Ch-ch-ch-changes

Mudança sim, mas não tanta.

Chateia-me visceralmente a necessidade que hoje existe de matar o teatro clássico em nome de uma evolução para o espaço conceptual, abstracto, livre, sem sentido.
Não me chateiam as performances que não querem dizer ou fazer sentir nada, não gosto, mas não chateiam porque não penso nelas. Agora, não venham é chamar-lhes teatro.
A não esquecer, para uma amante como eu, daquilo que é sentir o teatro:

- As coisas más, não passam a ser boas só porque são assumidas.

- Estar nu, já não é chocante, portanto, sem justificação torna-se apenas inútil e desnecessário, chato, aborrecido, repetitivo.

- O público não é uma opção, é fundamental ao Teatro. O não interesse em passar uma mensagem ou em fazê-lo sentir, é apenas egoísta e fácil.

- Os actores, adereços e cenários podem ser bonitos e glamorosos, porquê a necessidade actual em mostrar que o actor de teatro é aquele que se desprende dos bens materiais, da moda e do dinheiro? Ao querer afastar-se das imagens de divas do espectáculo, cria-se hoje a ideia de que para ser artista, é preciso não ter o mínimo de preocupação com a aparência. A diferença em vez de ser uma liberdade, torna-se hoje numa obrigação.

- A palavra, o texto, a personagem, não são apoios ao "teatrinho", são instrumentos do sentir, do mostrar, do representar que fazem do teatro o que é e sempre foi. São trabalho, ao contrário de um conjunto de performances de 10 minutos, que hoje em dia chega para construir uma peça.

- Shakespeare, Molière, Tchecov não são piadas antigas das quais os verdadeiros artistas actuais têm que se desprender. Como aliás devem desprender-se de tudo, visto que basta estarem em frente ao público em silêncio, nus talvez, para serem os melhores artistas do ano para os novos intelectuais, que percebem sempre toda e qualquer mensagem, mesmo que o artista não tenha sequer pensado numa.

O teatro vai muito para além de qualquer Praga, de qualquer um de nós, de qualquer tempo. Isto que agora se aprecia como espectáculo total, cheira apenas à explosão de fanicos interiores que todos nós às vezes temos, mas apenas alguns decidem que o resto do mundo terá interesse em apreciá-los.